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Drenos em cirurgia de mama: por que não usamos de rotina?

Publicado em 09/10/2026 por Thiago

Drenos em cirurgia de mama

Uma das dúvidas frequentes antes de uma cirurgia de mama é se será necessário voltar para casa com drenos. Esses dispositivos retiram sangue e outros líquidos da região operada e podem ser úteis em situações muito muito específicas. Mas sua presença não é, por si só, uma garantia de segurança.

 

Na nossa equipe, não utilizamos drenos nas cirurgias estéticas das mamas. Essa escolha faz parte de uma abordagem que prioriza o controle do sangramento, o planejamento dos espaços internos e a aproximação dos tecidos. Na nossa experiência, não observamos vantagens que justifiquem seu uso sistemático nos casos em que conseguimos essas condições.

 

Prevenir o acúmulo começa durante a cirurgia

 

Seroma é o acúmulo de líquido em uma região operada. Sua formação depende de diferentes fatores, como a extensão do descolamento, a lesão de pequenos vasos linfáticos, a resposta inflamatória e a presença de espaços entre os tecidos.

 

Esses espaços, chamados de “espaços mortos”, podem permitir que o líquido se acumule. Por isso, nossa preocupação é reduzi-los durante a própria operação, com uma reconstrução cuidadosa e, quando indicado, pontos que aproximem e fixem os tecidos.

 

Em nossa abordagem os vasos são coagulados antes que sanguem, a chamada hemostasia pró ativa e em cirurgias maiores utilizamos até mesmo um pó hemostasiante. Lavamos os tecidos com solução para retirar debris e a cirurgia é muito limpa o que a torna mais rápida e segura devido a visualização. 

Em nossa rotina de prótese e mastopexia, o seroma não é uma intercorrência habitual. Isso, entretanto, não significa que seja impossível: nenhuma técnica elimina completamente o risco de uma coleção.

 

O dreno também não substitui a hemostasia, isto é, o controle do sangramento. Se houver sangramento ativo, a causa precisa ser identificada e tratada.

 

O dreno também tem desvantagens

 

Mesmo quando conectado a um reservatório fechado, o dreno atravessa a pele e permanece em contato com a região operada. Seu trajeto e sua superfície podem ser colonizados por bactérias, tornando-se uma possível via de contaminação.

 

Estudos em reconstrução mamária com implantes associam a permanência prolongada dos drenos a maior risco de infecção. Esses resultados não significam que qualquer dreno cause infecção, nem podem ser aplicados automaticamente a toda cirurgia estética. Eles reforçam, porém, a importância de indicar o dispositivo quando seu benefício esperado compensa os riscos.

 

Há ainda desconforto, cuidados adicionais em casa e a necessidade de uma retirada posterior. Para a paciente, dispensar um dispositivo sem benefício claro pode tornar a recuperação mais simples.

 

A presença do dreno pode estimular a produção de líquido?

 

O dreno é um corpo estranho temporário em contato com os tecidos. Sua presença e movimentação podem contribuir para irritação local e resposta inflamatória.

 

Isso não permite afirmar que ele seja a principal causa de seroma, nem que todo líquido coletado seja produzido por sua presença. A própria cirurgia desencadeia inflamação e produção de líquido. O ponto é que o dreno também interfere no ambiente que pretende tratar.

 

Por essa razão, não consideramos o volume no reservatório, isoladamente, uma prova de que o dispositivo era indispensável.

 

E nas cirurgias secundárias?

 

Já ter operado a mama não determina, sozinho, a necessidade de drenagem. Nas reoperações, avaliamos a cápsula ao redor do implante, o espaço existente e a reconstrução necessária.

 

Nos casos em que realizamos a retirada completa da cápsula, nosso objetivo é controlar o sangramento e reorganizar os tecidos para reduzir os espaços residuais.

 

Na nossa experiência, a dissecção cuidadosa com material de ponteiras finas e magnificação da imagem pode permitir a retirada da cápsula com pouco sangramento. Entretanto, a capsulectomia pode sangrar, e a decisão de remover toda a cápsula depende da indicação e da segurança anatômica de cada caso. A retirada da cápsula não deve ser entendida como uma garantia de ausência de seroma.

 

Por que um dreno não garante proteção contra o seroma tardio?

 

O dreno atua enquanto permanece no local e está funcionando. Depois da retirada, ele não impede que uma nova coleção se forme.

 

Algumas coleções tornam-se perceptíveis na segunda semana, inclusive entre o décimo e o décimo quarto dia, quando o dispositivo já pode ter sido retirado. Mas o seroma pode surgir antes ou depois desse período.

 

Também não existe uma regra universal de retirada em até sete dias. O momento depende da operação, do débito, das características do líquido e da avaliação clínica. Manter um dreno apenas para tentar cobrir toda possibilidade de acúmulo tardio pode prolongar a exposição às suas desvantagens.

 

Na redução mamária, preferimos tratar os espaços

 

Na redução mamária, áreas de descolamento, inclusive na região lateral, podem favorecer o acúmulo de líquido. Quando indicado, nossa preferência é utilizar pontos de adesão para aproximar os tecidos e reduzir esses espaços.

 

A evidência disponível não demonstrou benefício significativo do uso rotineiro de drenos na redução mamária. Essa conclusão tem limites e não deve ser extrapolada para todas as operações da mama, especialmente mastectomias e reconstruções.

 

Caso apareça uma coleção, avaliamos seu volume, evolução e sintomas. Algumas coleções permitem apenas acompanhamento clínico; outras exigem punção, eventualmente guiada por ultrassom. Nesses casos, o cirurgião realiza a punção com técnica asséptica e define sua indicação de forma individualizada, sobretudo quando existe um implante mamário.

 

Penrose, tubular perfurado e Blake: quais são as diferenças?

 

Existem diversos modelos de drenos. Entre os mais conhecidos estão estes três:

 

Penrose. É um tubo muito flexível, geralmente de látex, que permite drenagem passiva para um curativo externo. Tem baixo custo, mas não oferece o mesmo isolamento de um sistema fechado nem a mesma facilidade para medir o volume drenado. Não é nossa escolha nas cirurgias estéticas mamárias. Assim como ocorre com outros dispositivos, o cirurgião deve fixar o dreno adequadamente e conferir sua integridade no momento da retirada. Além disso, ele não deve atribuir a possibilidade de retenção de um fragmento apenas à flexibilidade do dispositivo.

 

Tubular perfurado com sucção. Possui aberturas na porção que fica na região operada e se conecta a um reservatório fechado. A consistência varia conforme o material e o modelo; alguns são mais firmes que os drenos de silicone. Sua retirada exige cuidado e depende também da fixação e da relação com os tecidos.

 

Blake. É feito de silicone flexível e possui canais longitudinais para conduzir o líquido ao sistema de coleta por sucção. Quando há uma indicação de drenagem, é a opção que nossa equipe prefere, apesar do custo geralmente maior.

 

Quando podemos abrir uma exceção?

 

Ficamos anos sem usar drenos. Reservamos o uso de drenos para situações específicas, como determinados casos de tratamento de infecção em que a cápsula permanece e há necessidade de drenar a região.

 

Nesses cenários, nossa preferência é pelo Blake. O dreno é um recurso complementar: não substitui o tratamento da infecção nem define, sozinho, a manutenção da cápsula ou do implante.

 

A decisão de usar um dreno deve responder a uma necessidade concreta. Na nossa prática, prevenir espaços residuais, controlar o sangramento e acompanhar a paciente de perto permite dispensá-lo na maioria das cirurgias estéticas mamárias.

 

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Referências de apoio

 

  • Cochrane. Wound drainage after plastic and reconstructive surgery of the breast. A evidência encontrada refere-se principalmente à redução mamária: https://www.cochrane.org/evidence/CD007258_no-evidence-insertion-drains-after-plastic-and-reconstructive-surgery-breast-reduces-complications
  • Chen et al. Risk of infection is associated more with drain duration than daily drainage volume in prosthesis-based breast reconstruction: a cohort study. Medicine, 2016: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27930584/ 
  • Complications of Aesthetic and Reconstructive Breast Implant Capsulectomy: An Analysis of 7486 Patients Using Nationwide Outcomes Data, 2024: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38518757/
  • Johnson & Johnson MedTech. Características dos drenos Blake: https://www.jnjmedtech.com/en-US/products/surgery/wound-closure/blake-drains-and-jvac-reservoirs/

 

Autoria Dr. Thiago Cavalcanti — Instituto Lapidae.

Categorias: Blog, Cirurgia de mama, Curiosidades

Dr. Thiago Cavalcanti

Quem é e suas especialidades

Dr. Thiago Cavalcanti é um renomado cirurgião plástico, formado pelo Instituto Ivo Pitanguy em 2009, no Rio de Janeiro. Especialista em cirurgia de mama, é referência na técnica R24R, que promove uma recuperação pós-operatória em apenas 24 horas.

Desde o início de sua jornada na medicina em 2003, ele se dedica incansavelmente ao aprimoramento de suas habilidades e ao aprofundamento de seus conhecimentos. Reconhecido por sua abordagem inovadora, Dr. Thiago também é palestrante internacional e educador, tendo participado de eventos e treinamentos em países como Itália, Espanha, Turquia, Suécia e Austrália, sempre em busca das mais avançadas técnicas de cirurgia plástica.

Membro Titular da SBCP: Detém o grau mais elevado de certificação dentro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.

Dr. Thiago Cavalcanti
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